segunda-feira, 9 de março de 2009

Crime colombiano

Mão esquerda sob a saia. Mão direita sobre a faca. No quarto, dois corpos: um vivo, um vivo por enquanto. Por enquanto, porque há a faca. Mais precisamente, há a mão na faca: a degola. A degola não precisa de motivo. A mão é o motivo. A faca é o instrumento. A morte é só o resultado. A morte é isso: um resultado. E sangue. Sangue e resultado.
O corpo estirado parece um ponto de interrogação. Trágico. Cômico. Assustado. Quem, eu? Sim, você. Falta senso de humor às mulheres. E conhecimento de causa: esse sexo imprestável não sabe nem matar, nem morrer. A dignidade de um homem se mede pela sua capacidade de matar. As mulheres deviam ao menos saber morrer. Sem essa cara de espanto, de indignação: morri, e daí? A morte é só o resultado, compacto e perene como uma pedra. Morreu, sim. A faca matou. Degola.
Falta altivez à morte das mulheres. Toda aquela sensualidade calculada se desfaz com o gesto ágil de uma faca, de uma simples faca. Onde está aquele ar blasé? A morte feminina não sabe ser blasé. Morri, mas a morte é só um resultado. Não. A morte feminina é incapaz de um traço de orgulho. A morte feminina é a mulher descalça de seu salto alto.
Quanto tempo um homem pode perder com uma mulher em estado fetal? A morte faz da mulher um feto, sem salto alto. Sem traço de orgulho. Assustada e indignada como um ponto de interrogação. Não há mais o que pensar. Ela é isso: um ponto de interrogação. Ela nem existe mais, só existe a pedra, o resultado. Ela morreu, e isso é irrevogável.
O que sobra, então? Sobra a faca e a mão que leva a faca. Sobra o orgulho de ser o único a presenciar o sutil instante em que uma mulher vira um feto. Sobra simpatia suficiente para receber os cumprimentos do novo porteiro do prédio:
_Buenos días, muchacho.
_Buenos días.

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