sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eu sei que não te amo mais

quando passo a ver em seu corpo

apenas tecidos presos aos ossos

quando ao invés da sensualidade pulsante

de sua pele

o que sinto

é o toque de um frio organismo

quando vejo cada mitocôndria sua

produzindo ATP

para que diga as besteiras que diz

de carne e osso.

cálcio, lipídios e hormônios

uma alma?

com sorte,

talvez.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Glória à cerveja de garrafa

Os homens podem ser divididos em dois tipos: os que preferem chope e os que apreciam uma boa cerveja de garrafa. Um autor mais criterioso poderia incluir uma terceira categoria, ainda mais perversa que a primeira, a dos defensores do chopp, assim mesmo, com estrangeirismos alcoólicos. Diria que o indivíduo que vai tomar um chope tem ao menos a dignidade do samba, do futebol e da mulata a seu favor. O bebedor do chopp, nem isso. Não há São Sebastião ou outros deuses tupiniquins ao seu lado.

Mas como o autor que escreve é este, e não outro, fiquemos com as duas distinções primárias elucidadas acima. A partir delas, podemos traçar todas as características psicológicas dos dois tipos de homem. Talvez possamos até fazer prognósticos do futuro de cada um. Quem sabe se não somos capazes de adivinhar o amanhã, leitor, a partir da borra de cerveja que fica no copinho melado do boteco?

Bem, isso se é que você bebe mesmo cerveja de garrafa, porque este texto é aberto, sem censuras, e está disponível até para a espécie rival. Você deve conhecer, são aqueles frequentadores de bares extremamente asseados, segurando suas tulipas compridas e sustentando seus olhares esquivos, aqueles que enchem a boca para dizer: “Eu não entro em pé sujo”.

Pois bem. Quão diferente é o pé sujo! O tilintar dos copinhos baratos produz notas muito distintas daquelas emitidas pelas tulipas. Poderíamos dizer que a sinfonia resultante dos brindes é muito mais popular. Mais calorosa. Mais humana. Há comunhão na cerveja, como uma espécie de hóstia não sacramentada. Na mesma corrente brindam os pedreiros, os padres e os profetas, todos unidos por uma reza de cevada. Brindam às glórias e às desgraças de uma semana suada, carregada no ombro como um fardo ou no colo como um filho. Todos dão duro no batente: o do pedreiro é a obra, o do padre é a missa, o do profeta é a rua, mas todos têm o seu.

Ao contrário, há no chope um quê individualista. Cada qual com a sua tulipa. Cada um com os seus sofrimentos, as suas angústias, as suas imundícies. Não há partilha no chope, nem pode haver. Não é possível ver os copinhos se misturando na superfície da mesa de plástico, gerando dúvidas sobre os legítimos donos de cada um, e fazendo com que o mesmo copo tenha o prazer de beijar a boca de vários dos presentes, entre uma e outra beliscada na batata frita.

No átrio do boteco reúnem-se fiéis de todas as estirpes e classes sociais. A fé é unívoca entre todos os presentes: entre um e outro gole na gelada, a esperança de que o amanhã será melhor.

Achou este texto pretensioso? Herege, talvez?

Deixa estar, leitor. Você provavelmente bebe chope.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Carta de amor

Watson.

Me leve para tomar meu primeiro porre. Não que seja o primeiro. Mas, sabe, é que eu estou triste. E quando estamos tristes o porre que tomamos é sempre uma estréia.Talvez seja mais romântico.
Por falar em romance: esses seus olhos lânguidos carregam uma história? Tiveram o amor intenso e paciente das donzelas que esperam seus marítimos no cais? Ou o amor alvo e culto dos lordes britânicos?Quem sabe um dia eu saiba. Quem sabe você se torna mais feito de homem e menos feito de mistério. Eis a verdade dos fatos, Watson: as mulheres amam homens. Os mistérios alimentam sonhos debutantes, ilhas de ilusões e toda a sorte de coisas inacessíveis.
Talvez essa carta esteja longa demais, de modo que estou no ponto final e sequer me afastei do ponto de partida. Talvez eu escreva em círculos e não saiba, ou talvez eu nem escreva. Mas é ano novo - embora eu não saiba o número - e eu estou aqui, escrevendo e escrevendo e ainda não consegui dizer nada.Talvez você não queira ouvir, talvez eu esteja perdendo tempo. Mas tempo não me falta: tenho um ano inteirinho cheio de amores e surpresas.É, é isso aí.Tenho um ano inteirinho recheado de amores e surpresas, quer você participe dele, quer não.
Você quer saber?Eu já nem quero dizer mais nada. Eu já nem preciso mais de você.
Você quer saber de novo?Eu já estou de porre, Watson.
Tenha uma boa noite.
Ah!Feliz 2008-acabo de recordar o número.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Crime colombiano

Mão esquerda sob a saia. Mão direita sobre a faca. No quarto, dois corpos: um vivo, um vivo por enquanto. Por enquanto, porque há a faca. Mais precisamente, há a mão na faca: a degola. A degola não precisa de motivo. A mão é o motivo. A faca é o instrumento. A morte é só o resultado. A morte é isso: um resultado. E sangue. Sangue e resultado.
O corpo estirado parece um ponto de interrogação. Trágico. Cômico. Assustado. Quem, eu? Sim, você. Falta senso de humor às mulheres. E conhecimento de causa: esse sexo imprestável não sabe nem matar, nem morrer. A dignidade de um homem se mede pela sua capacidade de matar. As mulheres deviam ao menos saber morrer. Sem essa cara de espanto, de indignação: morri, e daí? A morte é só o resultado, compacto e perene como uma pedra. Morreu, sim. A faca matou. Degola.
Falta altivez à morte das mulheres. Toda aquela sensualidade calculada se desfaz com o gesto ágil de uma faca, de uma simples faca. Onde está aquele ar blasé? A morte feminina não sabe ser blasé. Morri, mas a morte é só um resultado. Não. A morte feminina é incapaz de um traço de orgulho. A morte feminina é a mulher descalça de seu salto alto.
Quanto tempo um homem pode perder com uma mulher em estado fetal? A morte faz da mulher um feto, sem salto alto. Sem traço de orgulho. Assustada e indignada como um ponto de interrogação. Não há mais o que pensar. Ela é isso: um ponto de interrogação. Ela nem existe mais, só existe a pedra, o resultado. Ela morreu, e isso é irrevogável.
O que sobra, então? Sobra a faca e a mão que leva a faca. Sobra o orgulho de ser o único a presenciar o sutil instante em que uma mulher vira um feto. Sobra simpatia suficiente para receber os cumprimentos do novo porteiro do prédio:
_Buenos días, muchacho.
_Buenos días.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Amo Tereza
(Tereza não sabe)


Todos os dias a claridade da manhã invade o quarto para violar minha intimidade. Incansáveis, os raios de sol vêm varrer os mesmos 10 m² para constatar que Tereza não dormiu comigo. Sempre fica no ar o aroma do seu cinismo, da sua frieza, da sua dissimulação: a manhã nunca se importa com o sofrimento dos homens.
Eu devia me afogar nesse copo de uísque. Velho, bêbado e morto: um fim romanesco para uma vida de humilhante solidão. Eu devia, no mínimo, enterrar meu rosto nos seios flácidos de alguma prostituta anônima dessa cidade desconhecida. Ao menos às sextas. Ah, as prostitutas!... Durante o resto da semana eu poderia poupar meu corpo de volúpias frívolas, ocupando a mente com... jardinagem? Não, não darei esse gostinho à natureza, não tornarei mais belas as manhãs que diariamente me humilham. Não me comportarei como o amante que oferece um buquê de rosas à mulher que o envergonhou com seu abandono...
Lá vem Tereza. Tereza não anda. Tereza flutua. Onde terá passado a noite? Com o mulato que descarrega as verduras na feira? Ou com aquele rapazola da rua dezessete? Uma agonia sem fim desenvolve-se nos meus intestinos. Sofro por uma puta. Mas Tereza não é puta. Tereza é louca. Seus cabelos desgrenhados, seu vestido barato, seu sorriso infantil, sua fome de sexo: não resta dúvidas. É louca.
(Mas a maior prova da loucura de Tereza está nos seios. Tereza tem seios petulantes. Uma mulher não pode ter aqueles seios e nenhum pudor. Só pode ser louca.)
Sofro por uma louca. Semana passada arrebentei minhas mãos no espelho do quarto por não ter coragem de arrebentar a cara daquele sem-vergonha que ultrajou Tereza no bar. Mas não foi covardia, ah, eu não podia, não podia! Já basta a humilhação da inspeção matinal dos raios de sol. Não suportaria a chacota de uma cidade inteira, de uma cidade-fantasma, eu, o velho forasteiro que se apaixonou pela puta, que socou a cara do velho que acariciou os seios da puta, que não dorme de noite porque seus intestinos não agüentam imaginar os gemidos da puta...
Tenho plena certeza de que Tereza sairá nua de casa a qualquer momento, cigarro de palha na boca, lábios cantarolando uma velha cantiga de ninar. Nesse dia, quem irá protegê-la da volúpia dos homens, da fome de seus sexos? Eu ainda estarei vivo para protegê-la? Sim, estarei. Eu estarei aqui, nessa casa amarela e descascada, esperando o auge da loucura de Tereza, o auge da loucura dos seios de Tereza. Será preciso que alguém a tome pela mão e a leve mansamente para um quarto silencioso, onde Tereza tomará um banho e adormecerá tranqüila como uma criança. Sim, será preciso que alguém a coloque para dormir, ela e seus seios, sempre atentos e ávidos pelo toque alheio... Nunca o meu, Ah, Tereza! Nunca o meu...
Como um par de seios pode desgraçar assim a vida de um homem? Tereza desgraçou minha vida.
Amo Tereza. Tereza não sabe.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Motim

Renego o amor plástico, com suas miudezas cirúrgicas.
Amor de espelho, de dama e cavalheiro.
Amor antiquado, sempre impermeável às irreverências
Do meu, do seu – do nosso – cotidiano.

Amor é plural e prosaico,
é o vivo , é o ato.

_Não aos cânticos de Glória, ao amor
de picos, fora do alcance das mãos,
das bocas, dos seios.

_Não aos eufemismos dos contos-de-fada,
onde os principados vivem eternas luas de mel..
‘E viveram felizes para sempre’-o príncipe, a princesa
e os jovens leitores que ainda acreditam na cegonha.

Chega de paixão cósmica, de Vênus,
De combinações astrológicas.

Leio:

“O príncipe levou-a pela mão. Sem champanhe, sem grinalda,
sem ponte levadiça. Um quarto próprio,
um sorriso encantado.

_E os pêlos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile...”

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Vergonha

Sou uma pessoa tolerante. Me considero calma, pacífica, até idiota. Que venham os esbarrões de Botafogo, que venham os engarrafamentos de Botafogo, que venham os pedintes de Botafogo. Sim, que venha até o cheiro de mijo de Botafogo. Mas certas exigências, mínimas, não podem deixar de ser cumpridas. Em especial aquelas que dizem respeito à comida.
Pedi um pastel. Mais especificamente, um pastel de queijo. Vamos lá, apesar de não estarmos em Sampa, todos sabemos o que um pastel de queijo deve ter. Gordura, muita gordura. E nada (eu disse nada) de queijo.
Certo, essa é a expectativa. Todo ser humano em sã consciência que pede um pastel de queijo já conhece os atributos indispensáveis de tão deliciosa iguaria. Não pode ter queijo. E ponto. Não tem essa de quebrar a tradição, de contrariar o espírito do capitalismo e colocar queijo no pastel de queijo. Não há lugar no mundo para essas excentricidades.
O velho chinês que me serviu desconhecia essa lei. E pra minha infelicidade, tive de comer toda aquela infâmia em forma de pastel. Aquele desrespeito aos antepassados dos antepassados dos pasteleiros.
Enquanto engolia, vergonhosamente, aquele insulto, lembrei que demoraria duas horas para chegar em casa. Sorri. Na minha terra, tão afastada daquela, ainda não há queijo no pastel de queijo.